De Bicicleta, Pelo Ambiente e Em Tom Francês

A decisão de pedalar até casa e optar por formas alternativas de transporte ao avião (a minha forma habitual e poluente de transporte entre Dublin e o Porto, 3 a 4 vezes por ano) surgiu da minha consciência ecológica e da minha vontade de tomar medidas para mudar o meu estilo de vida e consciencializar os demais em benefício do Planeta e da condição humana – inevitavelmente ligada ao ambiente! Sempre senti a necessidade de viajar, conhecer pessoas, culturas, tradições e ajudar de qualquer forma a melhorar o sustento do que realmente importa. Ao longo dos anos, estou a aprender a fazê-lo de forma mais consistente e a seguir a minha visão de sustentabilidade (em aprendizagem constante)

Uso principalmente as redes sociais para partilhar e convidar as pessoas a adoptarem comportamentos mais amigos do ambiente: win-win situation. Inspirada noutros exemplos (dentro deste género de viagens/iniciativas) decidi fazer uma angariação de fundos para a Greenpeace UK, que está em campanha há anos pelo Planeta – 1€ por km que fizesse de bicicleta (que seria por volta de 1000). Pensei que isto ajudaria as pessoas a envolverem-se mais com a causa e, por outro lado, ajudaria a desmistificar alguns medos de fazer eco-viagens como esta e outras mudanças simples para um estilo de vida mais ecológico.

Iniciei a angariação de fundos em julho de 2019, um mês antes da minha partida. Através das redes sociais; a minha ação chegou a algumas redes de comunicação social importantes e, felizmente, consegui construir um grupo social ativo, com quem vim a partilhar a minha preparação e progresso da viagem (de certa forma foram eles o meu alento para continuar e completar a expedição). Não estava preocupada com o quanto iria conseguir arrecadar para a Greenpeace, mas principalmente quantas pessoas conseguiria alcançar e inspirar.

A viagem começou no dia 1 de Agosto de 2019, em Dublin; bicicleta preparada apenas com o essencial – equipamento para acampar, roupas para desporto e kit de higiene eco friendly, um kit de reparação para a bicicleta, power bank, telemóvel, câmara comprada em segunda mão (à prova de tudo e mais alguma coisa, lol), garrafa de água reutilizável (de café também!), sacos de mercearia e apenas alguns extras para tornar a minha viagem autossuficiente. Bom, nada como vos mostrar! Vê o seguinte vídeo (a partir do minuto 10:45) – repara que a bicicleta já não é a freddie…snifff!

Continuando com a descrição da viagem: como Dublin é uma ilha tive de apanhar o ferry (preferia um barco à vela, mas não tenho um nem tive os contactos para acompanhar uma equipa); mais de 20 horas dentro de um ferry deu-me tempo para olhar em volta e perceber se esta forma de transporte tinha sofrido melhorias na poupança de energia e na gestão de resíduos, como se lê no The Independent; parece que se dedicam a um menor consumo de combustíveis fósseis, poupam energia a bordo e gerem resíduos… mas não é asim tão claro que isso está a acontecer (além de lâmpadas LED visíveis e caixotes para resíduos recicláveis, não se denotam ações para convidar os passageiros a cumprirem as medidas ecológicas a bordo). Pergunto-me: uma embarcação como esta não pode ser movido com a junção de 3 fontes diferentes? Solar, vento e fósseis em último recurso? Espero que possamos ver mais ferries e navios nessa direção para a quantidade de embarcações flutuantes no oceano que todos os dias se vê (é incrível! podes verificar na app Shipfinder)!

Aterrei em Cherbourg, França, e iniciei a minha jornada e bicicleta pelas vias “Vois Verte” (Greenways). Tinha planeado cerca de 1000km de bicicleta com algumas viagens de comboio pelo meio até Hendaye (cidade no sudoeste de França). Para chegar a casa, apanhava o comboio noturno para o Porto (onde infelizmente não permitem bicicletas…). Planeei cerca de 22 dias para toda a viagem, para que eu pudesse ter calma e conhecer cada zona diferente na Normandie, Bretagne, Pays-de-La-Loire, Poitou-Charente e Aquitaine. Na Normandie (ou Normandia em PT) segui o trecho da eurovelo 4, cheio de campos agrícolas bem organizados e maioritariamente utilizados; as rotas penetraram em florestas, caminhos de ferro antigos, velhos trilhos agrícolas e cidades; a mistura de chuva e calor cria um clima especial na Normandia, por isso é preciso estar preparado, mas é perfeitamente suportável e a paisagem é naturalmente calmante; diria que é um dos muitos destaques da Normandia são as pessoas – dedicadas e muito úteis. A maioria é eco-consciente e isso pode-se ver no seu dia-a-dia – valorizando os produtos locais, minimizando os resíduos, reutilizando, reciclando, etc; fortes adeptos da bicicleta e do contacto com a natureza. De entre tanta gente tenho de salientar duas proprietárias de Airbnb que me receberam na Normandia: Ghislaine, em Vaudry, é uma senhora com o coração mais caloroso de sempre, que me inspirou a viajar mais e a continuar a tomar decisões ecológicas ao longo da viagem; trocamos contactos, fotos e ideias. Caroline (que só falamos por mensagem) deixou a sua casa completamente à vontade para eu me servir; acreditam que eu nem a vi em mais de 10 horas que estive em sua casa? Surreal!

O Monte St. Michel foi um dos pontos mais esperados nesta viagem. Estava curiosa e ansiosa por lá chegar. Fica já dito que vale a a pena a visita, mas fiquei preocupado quando atravessei o caminho para chegar à entrada da cidadela, já que os autocarros de comunicação não eram geridos com gás natural ou eletricidade; a poluição direta não era visível, mas em nenhum lugar do seu website defendem o uso de alternativas ecológicas aos combustíveis fósseis. Quem me conhece sabe que odeio lugares cheios de gente e por isso não entrei. Fiquei para trás, hipnotizante, fotografando. No meu caminho, conheci um velho cavalheiro que me explicou (como pude capturar do francês) que ele fazia parte dos trabalhadores da construção civil no Mont St Michel e se lesionou enquanto trabalhava lá; parecia orgulhoso e triste ao mesmo tempo. Para mais factos curiosos, o Monte St é um dos marcos mais reconhecíveis da França, visitado por mais de 3 milhões de pessoas por ano e está na lista da UNESCO de Património Mundial desde 1979.

A digressão pela Bretanha foi muito curta; pois apanhei o comboio até Rennes (onde passei umas horitas) e segui a caminho de Nantes; esta viagem de comboio que fiz produziu uma quantidade muito pequena de CO2 produzido (quantidade expressa em bilhete comprado, por passageiro) – portanto high five para mim e para o comboio! As viagens de comboio oferecem tempo para refletir, planear e conhecer pessoas mais interessantes – 4 idosos empoleirados nas suas bicicletas elétricas em digressão para chegar a uma cidade na Bretanha (perto de Roscoff) apenas para passar alguns dias numa reunião de velhos colegas, em contacto com a natureza e com as memórias! Que top! Só por uma questão de aconselhamento, levar a bicicleta num comboio em França pode ser um desafio, já que as slots dedicadas são mínimas…ainda bem que esta equipe estava lá no comboio, porque já iam bicicletas a mais e um deles convenceu o revisor com falinhas mansas…

Cidades como Nantes merecem a predileção turística; a cidade valoriza os seus marcos históricos e culturais, bem como a paisagem e recursos naturais. Aqui tive o primeiro contacto em 33 anos com um Albergue da Juventude (Auberge de Jeunesse). Juntei-me ao grupo e fiquei espantado com a calorosa receção, estrutura organizacional na base do respeito e confiança. As condições internas nada tinham a ver com o aspeto do exterior! Realmente é necessário desafiarmo-nos a observar por diferentes ângulos, sair da norma e das comodidades habituais para alargar horizontes.

O passeio continuou pela costa oeste – passando por pântanos de sal, rios, fazendas de ostras, florestas… kms e kms de plantações de girassóis, vilas de férias cheias de turistas, areia e souvenirs. Mais uma vez consegui afastar-me das zonas mais movimentadas e no caminho conheci o Ghislain (não estou a brincar, as duas pessoas que fizeram uma enorme diferença na minha viagem partilham um nome tão próximo!); Ghislain é um tipo muito gentil e super calmo (que falava inglês, boa!! ?) que, como eu, decidiu usar as suas férias para andar de bicicleta pela França, conhecer pessoas e levar boas memórias para casa. Foi muito fácil andar de bicicleta durante dois dias com ele, pois tínhamos interesses comuns e começámos a partilhar ideias sobre como poderíamos viver de forma mais sustentável e inspirar os outros a fazer o mesmo; ele estava definitivamente mais pronto do que eu para ser autossuficiente – café matinal feito por ele usando uma prensa francesa em segunda mão e apenas uma ferramenta de gás de campismo (oh la la!). Preparar as refeições em modo ambulatório deu-nos tempo para conversar e descansar do trilho diário (faziam-se cerca de 70kms por dia). Acampar foi a nossa escolha, já que nesta área é a sua melhor opção se estiver num orçamento e quiser ter mais contacto com a natureza e com as pessoas. Neste tipo de viagens a solo há sempre pessoas que conheces e que, de alguma forma ficam na tua vida para sempre. Ghislain e Ghislaine ficam na memória!

Continuei a viagem em direção a Hendaye (passei por várias etapas da Eurovelo 1 e em várias cidade e vilas onde fui ficando uma noite para descansar as pernas – La Rochele, Bordeaux, etc). Já mais para o final da jornada a escolha de alojamento tornava-se mais difícil: consegui ficar num Albergue da Juventude em Biarritz por um triz (a ideia era ficar em Bayonne mas estava tudo cheio e não era lá muito charmoso…).

Cheguei à estação de comboios de Hendaye no dia seguinte (dia 17 de Agosto) e tive de me safar para conseguir um lugar para colocar a tenda e uma organização para doar “freddie” (não havia lugares no comboio noturno disponíveis e nenhum comboio permite levar as bicicletas); a equipa de formação ajudou-me a encontrar uma organização; contactei-os através do Facebook e organizei um encontro; parti imediatamente para encontrar um lugar para dormir à noite e, graças à bondade de uma proprietária de campo de campismo com 100 anos (a proprietária, o campo não sei…) consegui colocar a tenda num cantinho só para poder esticar as pernas à noite e dormir umas horitas antes da minha viagem do dia seguinte. Ainda conheci um velho cavalheiro que se tinha oferecido para usar o seu jardim para colocar a tenda mas eu não conseguia perceber o raio da morada, o homem estava todo suado e a comer amoras silvestres e não queria por os dedos no meu telemóvel; pensei que ainda fosse dar com o sítio, mas enganei-me! (pois mais uma história para contar). Nesse dia ainda fui dar um mergulho no mar, esticar-me sobre a toalha e ruminar na viagem que tinha feito até então! Que sorte que tive!

Encerrando o evento de angariação de fundos e a viagem mais fixe que fiz até então, consegui perceber que foi um sucesso – tudo correu bem, sem grandes recuos mesmo com o cansaço esperado; terminei com um grande sorriso na minha cara, 850 euros angariados para a Greenpeace UK (com feedback enviado à sua equipa de apoio a angariações de fundos), grande interação nas redes sociais com palavras de encorajamento ao longo da minha viagem e vontade de repetir uma viagem de bicicleta num futuro próximo, escolhendo uma rota diferente!! Há tantas só na Europa, basta verificar o site da Eurovelo.

Coisas boas vêm até nós quando nos presenteamos
com o direito de escolha e seguimos o caminho da libertação.

Comentário

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